29
set
11

Terra dos césares III

Depois do terrorismo todo sobre as filas, chegamos cedinho à Galleria Academia. O grande lance é ver o David do Miguel, o anjo. Entramos correndo com nosso cartãozinho fura-fila e lá está ele. Ficamos uns vinte minutos ou mais só eu, Alê, o David, e mais três pessoas que não pareciam muito interessadas: estavam apenas sentadas ouvindo o que quer que seja no aparelhinho que conta a história das coisas da Galleria. A emoção de estar ali com a obra-prima do máximo dos máximos renascentista é indescritível. A perfeição daquele cara de mármore de cinco metros de altura é… é… é… é isso aí. Impressionante. Emocionante. E vou repetir: indescritível. Valeu aqui tudo que paguei pelo fura-fila: vinte minutos de privacidade com o Davizão.

Apesar dos guias insistirem que a Academia não é só o David, acaba que é sim. Outras seis esculturas inacabadas do Miguel, o anjo, e nada mais relevante. Nos divertimos à beça às custas dos Bizantinos em exposição, mas isso é uma coisa muito nossa, e acho que não vai funcionar pra maioria das pessoas. O resto do Museu é irrelevante, dado o impacto do David.

Saindo de lá, esbarramos com um museu Arqueológico. Com a visita à Academia tomando muito menos do que tempo planejado, lá vamos nós. A princípio, uma mosta modernosa de artefatos Etruscos, até legal: descobrimos que as panelas feitas por teles há 4.000 anos ainda estão em bom estado, enquanto que as que temos em casa já estão praticamente inúteis depois de cinco anos. Evoluímos?

Depois da mostra, grata supresa: Artefatos egípcios impressionantes, e clássicos de virar a cabeça, inclusive um que me levou às lágrimas: a Chimera de Arezzo. Quando pequeno, esse monstro aparecia em uma tonelada dos livros de História que eu lia, e alimentava meus pesadelos. Pois, de repente, inesperadamente, alí estava ela, em carne… digo… em bronze: igualzinha às fotos nos livros. Ela mesma. Ganhei o dia.

Ao lado do museu, a igreja Saintissima Anunziata. Igreja estranha, com colunas clássicas na frente, o nome do Papa  Bógia na fronte, um átrio muito estranho… entramos. O tempo todo, perguntava pra Alê se existia um estilo Barroco-Plus ou OverBarroco. O que se vê á dentro é simplesmente inacreditável. Uma sinfonia de excessos. Tudo é demais: dourado demais, escuro demais, colorido demais, lúgubre demais, macabro demais. Vale cada minuto da visita!

Rango num restaurantezinho simpático, onde fizemos um lanche no dia anterior: Vitela assada e salada. Muito bom e muito barato.

Depois do almoço, a primeira experiência com o verdadeiro sorvete Italiano. Bom, saiba que você nunca tomou um sorvete de Pistache. E tenho dito.

Caminhando a esmo, chegamos à Piazza della Republica: um espaço reservado à ostentação e à futilidade. Ali se reúnem os muito ricos para exibir e trocar experiências sobre a vida com muita grana. Minha inquietação crescendo exponencialmente a cada minuto ali. Cruz-Credo!

Ainda andando sem destino, passamos por vielas bem medievalescas, imaginando aqueles estreitos corredores cheios de vítimas da peste negra, os cadáveres empihados pelos cantos, e os ainda vivos gemendo e esperando a morte. Deve ter sido uma coisa de louco aquilo ali.

Grande decepção: a Ponte Vecchio. Quando nos disseram que era um centro de comércio de joalheiros, imaginamos um espaço onde os artesão Fiorentinos ofereciam o produto do seu trabalho. Porra nenhuma! A ponte praticamente tomada por griffes internacionais. Que merda!

Chegamos à Loggia, em frente ao Palazzo Vecchio. Um abrigo com esculturas fantásticas de Cellini, Giambologna, e outros menos notáveis. É de babar. Nunca tinha prestado muita atenção nem em Cellini, nem em Giambologna, mas os dois estão pau-a-pau com o Miguel, o anjo. Dessas esculturas que a gente fica olhando e esperando que abram os olhos ou respirem.

Saímos dali meio sem destino, e descobrimos que seguir uma linha reta em Firenze é muito difícil. Basta um "olha aquela igreja ali" e pronto, nunca mais se encontra o caminho.

Perdidos que estávamos, acabamos esbarrando num brechó, a alegria da Alê. Entramos.. e até tinha umas coisas interessantes, mas a placa dizendo "a loja é minha a e coisa rola aqui dentro do jeito que eu quiser", e o mau humor da mocinha que atendia, nos espantaram.

Numa loja de um costureiro, um cartaz dizendo que não aceitava cartão de crédito devido à "atitude usurária dos bancos". Segundo ele, manter a maquinha de cartão na loja, custa um vestido por mês. Próximos ao Ospedale, encontramos uma série de pichações criticando a economia de mercado, os bancos, o neolibrealisno. A coisa não está muito boa mesmo.

Já à noite, não encontrávamos nenhum lugar aberto para comer. Dizem que os italianos gostam de jantar tarde, mas devem comer em casa, visto que às 20h quase tudo está fechado. Achamos uma pizzaria Self Service na Piazza San Marco e nos arrependemos. Pizzazinha sem-vergonha, ruim mesmo.

Voltamos pra visitar o Palazzo Vecchio à noite, porque algumas salas só estariam liberada depois das 21h. muito legal a visita, mas nenhuma obra notável, só réplicas. O Palazzo mesmo é que é atração, a vida dos Medicis e coisa e tal. Dá pra viajar no tempo. A vista do Mezzanino vale a pena, mas não é nada digno de nota depois da subida ao topo do Duomo.

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